Toca o despertador. São 6 horas da manhã. Os pais (ou apenas um deles) colocam água para ferver e passar o café. Começam a se arrumar para ir ao trabalho e às 6h30min começam a chamar o filho para que se apronte para escola. Por volta das 7 horas, o tempo já está se esgotando e junto com ele, a paciência: “é a última vez que eu vou chamar!”. No susto e na pressa, o filho levanta. Escova os dentes com olhos entreabertos, não toma café da manhã, coloca o uniforme e sem trocar qualquer palavra com os pais, vai entrando no carro.

Ainda em silêncio, seguem para a escola. Ao se aproximar do portão da escola, o filho coloca a mão no trinco da porta, a mãe se despede: “boa aula, filho”. Ele murmura: “tá, tchau!”.

Ele segue andando, encontra um amigo no caminho, eles se cumprimentam e agora, pela primeira vez no dia, o filho sorri.

Os pais se perguntam: o que aconteceu com ele? Será que não estou o tratando como deveria? Será que ele é infeliz? Será que eu o sufoco? Será que ele me abandonaria, se pudesse? Será que ele me esconde algo? Será que é só uma fase? Será que ele tem discernimento o bastante para entender o que é errado, inconveniente ou perigoso? Será que seus amigos “prestam”? Será que ele tem uma namoradinha? Será… será… será?

A única certeza é que chegou o período da adolescência (ou “aborrecência”, como alguns preferem). Os sintomas são claros: afastamento, rebeldia, impaciência, mau humor, falsa percepção de que sabem tudo, intenso desejo por autonomia, busca de posicionamentos claros (muitas vezes contrários aos de seus pais), fecham-se em seus quartos e só saem quando preciso.

E esses não são os únicos sintomas, até porque nem estamos falando das características físicas aqui, mas já são o bastante para causar frio na espinha de qualquer pai e mãe.

Não é difícil compreender o porquê é tão desafiador lidar com este adulto em formação. Até pouco tempo atrás, era uma criança que costumava obedecer aos pais sem muito questionar e, ainda, acreditava em tudo que lhe era dito. Era mais carinhoso e costumava contar para sua mãe tudo que queria, pensava e fazia.

Além disso, nesse período de transição o adolescente muitas vezes sente que é cobrado como um adulto e restringido, como uma criança. Inclusive, ele já não recebe mais o mesmo tratamento, atenção e carinho de sempre. E, por outro lado, também não experimenta a mesma consideração, reconhecimento e respeito de um adulto.

Evidentemente que tudo isso pode variar em diferentes graus de intensidades, mas, de forma geral, isso é passível de ocorrer em qualquer família.

É exatamente nesse contexto em que pais e filhos aparentam ser estranhos no ninho. Chega um momento em que não mais se reconhecem como antes. Os filhos se sentem incompreendidos e se fecham, enquanto o modo com que os pais reage determinará “as cenas dos próximos capítulos”. É uma tragédia silenciosa dentro de casa

O desejo de conviver e compartilhar sentimentos é natural quando nos percebemos compreendidos e respeitados pelo outro. É por isso que o filho não sorriu para você de manhã, mas sim para o amigo, ao entrar na escola. Ele não pode sentir que a relação entre vocês é puramente hierárquica, mas sim que há parceria.

Daí a importância dos pais buscarem conhecer seus filhos, pois, somente buscando essa proximidade, de forma constante, é que o filho terá todos esses sentimentos amenizados e passará a ver você como um parceiro, que o compreende e apoia.

Afinal, tente por um momento analisar pela perspectiva do adolescente. Ele está em uma fase de incertezas, passando por diversas mudanças (físicas, hormonais, emocionais, sociais), sentindo que as responsabilidades estão ficando cada vez maiores e que, gradualmente, o mundo espera mais deles. Seus pais esperam mais dele!

Grandes desafios começam a aparecer em sua vida: relacionamentos afetivos, fácil acesso àquilo que seus pais tentavam lhe privar, a escolha de uma profissão, a dúvida na hora de prestar um vestibular. Com isso, vem o medo. Medo de fazer uma escolha errada, medo de decepcionar os pais, de se arrepender, de não conseguir realizar o que gostaria, de não ser aceito. Na sequência, vem a insegurança. E o adolescente não costuma, por padrão, compartilhar a confusão dos seus sentimentos com seus pais, o que torna tudo mais difícil.

A verdade é que o filho adolescente tende a precisar do apoio e compreensão assim como ocorria na infância. A diferença é que agora é mais desafiador para os pais acessarem o que realmente aflige os filhos, porém é latente a necessidade deles de ter você por perto, prestando seu apoio e incentivo nesse período tão controverso.

Para os pais, por outro lado, muitas vezes a tendência é, simplesmente, deixar… Esperar que a fase passe e torcer para que tudo acabe bem. Sentem que é mais fácil dar-lhes a liberdade de fazer o que querem e que estão o ajudando dessa forma, quando na verdade o que eles querem é contar com a segurança de sentir que você ainda está ali com ele.

Pense por um segundo: é fácil não estimular o diálogo, não compreender seus anseios, não se esforçar para entender seus gostos, não criar intimidade, não acompanhar seu desempenho na escola. Difícil é quando você se dá conta de que há um estranho dentro de casa. Um adulto em formação, que não se sente pertencente à família. Isso, sim, é muito difícil.

E o meu desejo não é trazer para você mais preocupação, mas preciso salientar que é nesse período em que diversas experiências e influências revelam-se como determinantes na vida do jovem. Um bom professor, por exemplo, pode influenciar a carreira do seu aluno que, por compreender bem os conteúdos explicados, decide seguir carreira em alguma área correlata. Imagine, então, o tamanho da influência gerada pelos pais…

O que eu quero, na verdade, é apenas falar para você, pai ou mãe, que tudo isso que seu filho adolescente está passando nada mais é do que uma característica biológica. Não é um problema, por si só, mas pode se tornar.

É perfeitamente normal que note aqueles sintomas que mencionei acima. Porém o seu foco deve ser: o que eu posso fazer para auxiliá-lo com tudo isso?

A minha ideia é que você realmente busque como você pode ser menos permissivo e mais participativo, diariamente, em sua relação com ele. E, refletindo sobre tudo que você leu até aqui, firmar consigo mesmo o compromisso de mudar de postura, assumindo um comportamento mais ativo, compreensivo e, ao mesmo tempo, firme!

Faça o teste, você só tem a ganhar!

João Lucas Cortez.